domingo, 13 de março de 2016

O Drama do Airbag e da Geladeira

Por um segundo vacilou.  O vendedor perguntou a ele novamente:
- O senhor prefere air bag duplo ou somente um air bag para o motorista?
Aroldo sabia dos perigos que rondam o trânsito, perigos de morte. Mas uma geladeira fixa no painel, ao seu lado, seria magnífico! Poderia carregar sempre uma água gelada e também umas cervejinhas.  Mas e a segurança de Vilma? Ela ficaria sem air bag? Ah! Quem cuida da gente é Deus.
Empresário já conhecido em São Paulo, Aroldo estava em seu terceiro casamento. Teve 3 filhos com cada mulher. Conseguia manter um nível mediano de vida para os filhos. Viveu momentos de riqueza, mas os golpes da vida às vezes são duros.  Então trocou de ramo algumas vezes, chegou a investir num cabaré no centro da cidade, que era movimentado como nenhum escritório do Brasil. Sorrisos masculinos para todos os lados. Bebida e cigarro à revelia. À Aroldo lhe apetecia o ambiente de orgia e boemia. Grande amante dos boleros e perfumes baratos.
Porém Aroldo não era burro, nem tão entregue às paixões. Sabia lidar com a situação, ou pelo menos pensava saber. Esforçava-se em ser bom pai para seus nove herdeiros, mas nem sempre alcançava o êxito.  Falhava na pensão, no tratamento dentário, às vezes no pagamento da mensalidade escolar.  E mais ainda na atenção e carinho, que lhe custavam tempo em sua agenda lotada.  Mas também, com o aumento do uísque e do imposto sobre o carro importado, não há mortal que aguente!
Como esposo, ele era interessado, cuidava delas, dava carinho, mas às vezes a malandragem falava mais alto, e a tentação de se entregar à poligamia lhe era impossível de resistir.  Aroldo era tarado, não tinha jeito. Ficava impressionado com as mulheres.  Lembrava daquela bunda o dia inteiro.
Veio da pobreza, trabalhou muito, teve que aprender a se virar no país da malandragem. Era culpado em parte, mas também era resultado do meio, assim como os políticos e policiais desse país.
Estudou pouco e acreditava que o mundo inteiro era assim, pessoas sem consciência de coletividade, que não conseguem lidar com o egoísmo tornando-se pior que bicho.  Vivendo a regra da selva, onde sobrevive o mais forte. As ruas foram sua escola. Até preso foi. Porque logo ele, deveria seguir as leis num país onde se fazem leis para não as seguir?
Mas Aroldo era destemido, não se dava por derrotado, tinha orgulho de se levantar sempre depois das quedas. Falia, mas voltava a se reerguer. Divorciava, mas se casava novamente. Não desistia do sonho. Era a figura do brasileiro forte, resistente, criativo.  Quiçá consigamos utilizar essa resistência contra o sistema que oprime os mais fracos.
Depois de sair da cadeia, na qual foi preso por não pagar pensão para ex-mulher e filhos, resolveu mudar de vida. Ia montar uma fábrica. E renovar sua imagem no mercado. Numa estratégia de marketing pessoal foi à concessionária comprar um carro novo.  Era uma camioneta bonita e imponente. Daria à ele uma imagem de homem de negócios que ele precisava. E sem pestanejar, com sorriso canalha, respondeu ao vendedor:

- Isso mesmo. Air Bag para o motorista e geladeira no painel.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O pão mofado

Outro dia desses Vangelder foi ao supermercado. Ele já se preparava psicologicamente, visto o estresse que é frequentar supermercados brasileiros: filas gigantescas, demora do funcionário que fica no caixa, que aliás é um coitado, pois ganha um salário de miséria pra ficar o dia inteiro cuidando da riqueza do patrão e ainda tem que aturá-lo com suas manias de grandeza.
Era verão e o sol brilhava com força no Rio Grande do Sul. Os pássaros cantavam antes da hora, e às oito da manhã o sol já estava rachando mamonas. As pessoas já acordavam suando em suas camas, uns chegavam a desconfiar de alguma goteira nova no quarto. Os mosquitos picavam à reveria, parecia um ataque soviet, as crianças choravam com aquela tortura da cadeia alimentar.
Vangelder acordou cedo, como de costume, tomou seu café com waffle, e lembrou de seus bons tempos de Amsterdam, quando tomava café na beira dos canais, sentindo a brisa leve afagar-lhe o rosto. Seguiu seu destino, caminhou pelas calçadas esburacadas como um malabarista, ouvindo buzinas e xingamentos de trabalhadores que dormem pouco pra dar conta do recado. Que chegam tarde em casa, emputecidos com seu chefe e trabalho mal remunerado, que mal da pra pagar as contas. Tem que lidar com um casamento falido e filhos mal-criados, pois ficam mais na rua e creche que com os pais. Enfim, depois de enfrentar a barbárie das ruas brasileiras, chega no supermercado pra fazer uma pequena compra.
Pessoas circulam e buscam o menor preço. O brasileiro tem esse péssimo costume: ele sempre busca o menor preço. A qualidade fica pra segundo plano. Talvez seja porque tudo por aqui seja de qualidade duvidosa, visto que a cultura da malandragem impera nesse país. Pra tudo se dá um jeitinho. O brasileiro desliza seboso pelas dificuldades e burocracias pra ganhar seu pão, ou mesmo pra enriquecer em terras tupiniquins. Talvez um dia ele perceba que é preciso abandonar esse "jeitinho" pra poder ter mais qualidade de vida, mais saúde, mais paz. Não podemos aceitar produtos sem qualidade nas prateleiras, muito menos em nossas casas, na mesa dos nossos filhos. Se boicotarmos os produtos sem qualidade, todos se esforçarão para produzir produtos com maior qualidade para poder vender.
No supermercado, nosso protagonista escolhe seu café, farinha, e dentre outras coisas o pão de forma. Satisfeito com suas escolhas ele segue para o caixa, enfrenta uma fila de 15 minutos e depois de pagar vai pra casa. Chegando em sua residência, Vangelder retira os produtos da sacola e um a um vai colocando na despensa. Com assombro, percebe que o pão que acabara de comprar esta mofado, e para sua surpresa, ainda está dentro do prazo de validade. A indignação toma conta de Vangelder, que mais do que depressa corre de volta ao supermercado.
Chegando ao destino, ele pede pela presença do gerente, ao qual explica a situação. O gerente pede a nota fiscal e com desconfiança autoriza o gringo a trocar seu produto. Trocado o pão, segue pra casa um pouco nervoso pela situação. Em seu lar, pra sua revolta, percebe que esse novo pão está mofado também. Pé na estrada novamente. 
Dessa vez ele não estava para brincadeiras. Foi decidido a fazer justiça com as próprias mãos. Afinal, estavam fazendo ele de palhaço, não era possível.
Aos brados ele entra no supermercado e para terror dos funcionários e do dono ele dirige-se à gôndola dos pães e repete incessantemente com sotaque estrangeiro: estragado, estragado, estragado! E enquanto berra, sai derrubando todos os pães no chão, e como não bastasse chacoalha a gôndola como a mulher gorila chacoalha sua jaula, no circo de horrores. Os clientes ficam horrorizados, alguns se deliciam em seu íntimo com a cena.
Ao final da história, depois de muito estresse, muita conversinha e muito escândalo, Vangelder sai com um pão novo em folha debaixo do braço, mais uma vez satisfeito e com a boa sensação de um velho e bom educador das ruas. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

A velha do Maranhão

Evaristo nasceu no sul do Brasil, passou sua infância e adolescência lá, onde estudou, fez amizades, namorou algumas garotas. Sempre foi ensinado a competir pelas melhores oportunidades, pelo melhor posto. Tendência capitalista que o sul do Brasil herdou da Europa. Porém ele nunca gostou muito da ideia, e ao longo do seu amadurecimento ele foi percebendo que podia fazer diferente, podia optar por uma vida simples, que fugisse à regra do consumismo desenfreado, que fosse mais honesta sobre seus sentimentos de cooperação com os amigos e vizinhos.
Primeiro ele desistiu da ideia de ter um emprego. O emprego é como uma cadeia que prende o homem à sua mesa, ao seu escritório, oficina; inibe a criatividade, a autonomia, transforma o homem em uma engrenagem da grande máquina capitalista que enriquece os patrões, que são muito poucos comparados à imensa maioria proletária. Evaristo chegou a ter alguns negócios, pra pagar as contas, mas não se perdia no labirinto da ganância e do egoísmo.
Decidiu ir morar no norte do país, mais especificamente no estado do Maranhão. Conseguiu um sítio barato no meio do mato, no sul do estado, 30 quilômetros da cidade mais próxima, 5 quilômetros do vizinho mais próximo. Era uma vida nova, com sua mulher e seus dois filhos pequenos. Pescava no rio, criava suas galinhas, plantava alguma coisa e viviam sem luz elétrica e sem banheiro. A cagança rolava no mato. Jogava-se a enxada no ombro e seguia mata adentro procurando o local mais tranquilo e agradável. Era puro prazer. O cheiro das ervas e flores relaxava seu intestino.
Muitas histórias vivenciou Evaristo e sua bela família. Avistaram bichos em extinção, viram pegadas de onça perto da casa, cobras de todo tipo, mas pra eles era tudo aprendizado e alegria. Dormiam e acordavam com o sol. Se sentiam parte do todo, energia do mesmo planeta.
Uma coisa que lhe chamou muito a atenção foi o povo maranhense. Os que viviam na região eram bem caboclos. Mestiços de índio e negro com uma pitada de branco: uma receita tradicional brasileira. Porém eles tinham costumes e jeito bem aborígene, estilo homem das cavernas. Eles viviam da mata, da pesca, caça. Pouco se plantava; era mais a mandioca e o arroz, que era muito admirado pelos mesmos. De resto, eles não se interessavam muito pelo plantio.
O Barbosa, vizinho dele, não queria saber de muito trabalho. Até pra caçar, ele armava uma rede no alto e ficava deitado com a espingarda, esperando o bicho vir até ele. Esse mesmo Barbosa, morou numa casa de pau-a-pique que depois de muitos anos começou a entortar pra cair, e esse caboclo só saiu de dentro depois que caiu uma parte. Aí com muito esforço ele construiu uma nova casa.
Mas o que mais chamou a atenção de Evaristo foi a esposa de um outro vizinho. Seu Ronildo tinha um sítio ali perto e um dia convidou Evaristo e sua família para um almoço de aniversário. Foi quando apresentou sua esposa. Dona Nene tinha 1,40 metros de altura, forte, cabeça chata mas de um jeito que não parecia humano. Um cranio espetacular. Tinha dentes pequenos, mas afiados, grandes gengivas, olhos pequenos, mãos tremulas e com pouca sensibilidade. Ela falava em grunhidos, quase não dizia palavras. Tinha reações bestiais. Nas palavras de Evaristo aquela senhora parecia homo sapiens, uma evolução anterior à nossa. Intermediário entre o macaco e o homem moderno. Os filhos de Evaristo tinham medo dela. No primeiro dia que a viram, choraram de medo.
E entre outras preciosidades Evaristo guardou aquilo na memória de bons tempos de sertão.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Tocando por uma causa nobre

Tocando por uma causa nobre

Eusébio era um homem simples, criado no interior do Tocantins sempre foi um homem direto, honesto e transparente. Era amigo de todos, uma pessoa da paz, sempre querido pelos seus conterrâneos. Casou com Maria das Dores e teve 4 filhos, dois homens e duas mulheres. Além da sua família, sua grande paixão era a música. Exímio violonista, aprendeu a tocar com um amigo de seu pai, e desde criança criou amor pelo instrumento e até então não se imaginava sem o violão. Gostava de música popular brasileira, guitarradas, dentre outros sons do norte do Brasil, e passava tardes nas casas de amigos tocando e compondo músicas.
Além das muitas apresentações musicais, das quais tirava seu ganha pão, ele dava algumas aulas de violão pra complementar a renda. Ser músico profissional nesses dias não era nada fácil, raro eram as pessoas que viviam da música. Mas para Eusébio isso não era motivo pra desamimar. Seu sonho era aquele, viver de sua paixão. E ele pensava, analisando suas prioridades de vida, que se fosse pra viver com pouco e ser feliz ele preferiria mil vezes a simplicidade. Afinal, pra que servem os luxos sem a felicidade?
Criava umas 10 galinhas no terreiro, além de cuidar de seu pequeno pomar. Nas poucas vezes que foi pra cidade grande, já logo queria estar de volta ao seu querido interior, onde ouve-se os passarinhos ao invés de buzinas de carro e moto, contempla-se flores coloridas ao invés de avenidas em marginais cinzas, paredes pichadas, onde respira-se ar puro e come-se alimentos sem veneno. O que mais lhe intrigava era ver um monte de gente vivendo um em cima do outro, engaiolados, sem tocar na terra de seu quintal e que utilizavam de grandes caixas metálicas que subiam e desciam mecanicamente transportando esses infelizes. Ele nem gostava de entrar nessas habitações. Era uma coisa muito esquisita.
Certo dia, Zé Miguel chamou Eusébio e contou que tinha plano de ajudar uma Organização Não Governamental que cuidava de crianças especiais, explicou como funcionava o trabalho daquele pessoal e toda a ajuda que eles representavam para a região. Tinha muitas pessoas que não sabiam que fariam com seus filhos, por falta de instrução e dinheiro, e essa instituição ajudava com escola, alimento, acompanhamento médico, e muitos outros tipos de apoio. Eusébio ficou maravilhado com a prestatividade daquelas pessoas. Zé Miguel convidou ele para participar do projeto, onde eles fariam um show pra arrecadar dinheiro pra Instituição.
O show foi feito, encheu, e no dia seguinte eles foram lá na ONG levar o dinheiro. A diretoria ficou muito feliz com a ajuda e pediu que eles fossem apresentados às crianças. Eles iriam fazer uma pequena apresentação para todos ali. Prepararam os instrumentos, o som, se ajeitaram e Zé Miguel pegou o microfone e se apresentou:
-É com muita satisfação que venho aqui tocar música para vocês. Sou Zé Miguel, percussionista e amigo de vocês. Obrigado.
Eusébio estava faceiro, sorridente, orgulhoso. Aí foi a vez dele de falar:
-Eu sou o Eusébio, toco violão, e é um grande prazer estar aqui e tocar pros mongoloides, pessoal tão legal.
Alguns riram, outros ficaram assustados, outros calados. E o show foi um sucesso.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Xingando mulher porca

Xingando mulher porca

Vangelder era um senhor dos seus setenta e cinco anos, era engenheiro mecânico e trabalhava numa grande empresa no sul do Brasil. Era metódico, tinha explicação pra tudo, e tinha um senso apurado de civilidade. Era bélgico e tinha vindo para o Brasil no início dos anos oitenta, com seus 45 anos. Mudança trágica que ele enfrentou por sua mulher Marcília, gaúcha que ele conheceu na Alemanha e se apaixonou. Ele disse à ela depois de muita aporrinhação: Ou vamos para o Brasil agora, ou nunca mais! Eles foram. Casou tarde, pois entendia que casamento era pra vida toda. Então antes de casar, vivenciou muitas coisas, morou em outros países, morou dentro de um veleiro por 7 anos, teve várias namoradas e assim casou-se sem se arrepender, muito. Casou com 42 anos, mas poderia ter enrolado até uns 45, disse ele uma vez aos amigos de seu único filho.
No Brasil, Vangelder enfrentou a crise eterna de ser latino-americano. Não era, mas teve que viver como um. Pegou a fase final da ditadura militar, corcéis, fuscas e kombis enchiam as ruas brasileiras. A inflação era absurda, havia muita pobreza e fome, e os políticos eram blindados contra qualquer tipo de ataque do povo. As pessoas não estavam acostumadas com liberdade, com educação livre, com a consciência de coletividade urbana. Furava-se sinal de trânsito, não usava-se cinto de segurança, era comum pagar propina para policiais rodoviários e não rodoviários, entre outros atrasos que para Vangelder lhe causavam indignação e até uma vontade de ser justiceiro. É aí que começa nossa história.
Era meados de outubro e no Rio Grande do Sul pairava o frio. Aquele inverno tinha sido intenso, a água congelava nos encanamentos e quando abria-se a torneira, não vinha nada. Para aquecer o motor do Corcel 1973 era preciso liga-lo uma hora antes, no mínimo, e agasalha-lo com uma coberta como à uma criança. Vangelder como de costume acordou cedo e foi para o trabalho, lá encontrou seus colegas, e enquanto faziam um projeto de um silo para uma fazenda de soja, um deles começou a falar do trânsito caótico que havia em Porto Alegre e da falta de respeito com a lei de trânsito por parte das pessoas: Desse jeito vamos terminar como animais numa selva, onde só o mais forte sobrevive! Vangelder aproveitou o ensejo e encheu a boca pra falar da Bélgica, de como havia um senso apurado de civilidade, onde se faziam leis para serem seguidas, onde a pessoa podia sair de casa e deixar sua porta aberta. Todos concordaram com ele e lamentaram o Brasil estar tão aquém dessa evolução de pensamento coletivo.
Veio a hora do almoço e Vangelder partiu para seu restaurante de costume. Não era seu preferido, mas tinha um bom buffet, variado e saudável, e como ele bem sabia, l'homme est ce qu'il mange, e assim ele caminhava já imaginando seu déjeuner.
Quando o nosso gringo estava chegando em seu destino, viu uma cena deplorável: uma senhora de seus cinquenta anos que já deveria ter vergonha na cara, joga a embalagem de seu lindo bombom na calçada, sendo que havia uma lixeira à 10 metros dali. Vangelder se indignou, e contendo a emoção, disse em português carregado de sotaque: Senhora, senhora! A senhora deixou cair um papel no chão! A mocreia com ar de desdém olhou para aquele senhor europeu e disse: Não caiu não, foi eu que joguei mesmo! Ah! Aí Vangelder não se aguentou, com os olhos arregalados e vermelhos, com o corpo todo tremendo de raiva e com toda a força de seus pulmões gritou em alto e bom som: Prostituta, prostituta, prostituta!
Esse ato de selvageria, de justiça com as próprias mãos, de lição de moral, lhe bastou, e com sensação de trabalho feito, foi almoçar, sabendo no fundo que era um professor das ruas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Libertinagem no MST

Num desses projetos universitários de intercâmbio, João Valente se inscreveu e esperava ansiosamente a oportunidade de conviver com um grupo do movimento social que mais admirava, o MST. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra estava lutando por adquirir respeito e credibilidade junto à população em 2014, principalmente com os Liberais. Era um movimento sério em sua maior parte e buscavam a igualdade social através da distribuição de terra improdutiva (geralmente de latifundiários) para a população desprovida de terra e que queria trabalhar na terra, produzindo. João contava os dias desde 8 meses atrás, quando se inscreveu. Como um marxista convicto começou a imaginar a revolução rural, a utopia da vida campestre. Filosofia social permeou sua mente por dias.
Valente queria ver o dia-a-dia daqueles trabalhadores, daquelas pessoas simples e maravilhosas. O dia chegou e ele pegou o ônibus, percorreu mais de 500 quilômetros, Brasil adentro, pequenas cidades que resistiam ao espírito selvagem do capitalismo, que enfeitavam suas ruas com flores, que conversavam demoradamente com seus vizinhos, que saiam de casa e despreocupadamente deixavam suas portas sem trancar. João Valente chegou na cidade, desceu do ônibus e foi se informar de como chegaria ao sítio. Descobriu que havia uma van do assentamento na cidade naquele momento, descarregando produtos artesanais. Foi ao encontro deles que o receberam com muito carinho.
Ao saírem rumo ao campo João Valente sentiu a energia mudar, o silêncio chegar, a paisagem melhorou: parecia que seus olhos lhe agradeciam a vista, vales verdes; seu olfato sentia a mata cheirosa, viva. Quando chegou ao assentamento, sentiu o calor humano daquele grupo que o recebeu muito bem, com comidas produzidas por eles mesmos, com um espaço com cama, lençóis limpos, recebido como membro da família de um senhorzinho chamado Januário, que residia naquela casinha modesta, feita de madeira. Seu Januário era muito simples, criado na roça, foi tentar a vida na cidade na sua meia idade, mas foi só desilusão, sofrimento com o egoísmo que a cidade produz nos seres humanos que lá vivem, sem contar o ritmo frenético que as pessoas ignoram ser anormal.
Conviveu com eles por duas semanas, ajudando na roça, na capina, na colheita e todo tipo de trabalho realizado no meio rural. Conversava sobre o movimento, sobre o poder popular, sobre as assembleias e todo o sentimento de luta e amor ao movimento. Histórias de militantes notáveis, de situações duras e de alegria, tudo que um movimento social passa. De noite, tocavam modas no violão ao redor do fogão à lenha, foi muito agradável aqueles dias.
No mesmo período que João intercambiou no MST, outros rapazes e moças também tiveram a oportunidade daquele convívio. Valente conheceu um pessoal muito interessante, e entre eles duas garotas muito especiais e lindas. Belas e inteligentes, ele ficou apaixonado. Não demorou muito ele ficou com uma e com a outra. Elas sabiam, eram amigas. Mas isso não era problema para elas, não havia ciúmes entre elas.
Numa noite dessas João Valente agarrou Sabrina e depois de uns bons amassos, ela deu a ideia de irem pro quarto da casa, onde João dormia. Ele tentou tirar essa ideia da cabeça dela, porém não havia onde ir, e eles queriam muito consumir o ato. Não teve jeito, foi ali mesmo, com a família de Seu Januário do outro lado daquela parede fina de madeira. Todos ouviram os uivos de gozo do casal naquela noite silenciosa.
Abalado mas não derrotado psicologicamente, o casal seguiu suas tarefas e mais a noite foi a vez de Ritinha provocar João com uma pegada certeira. Com a mão cheia, Ritinha pediu pra João penetrá-la, ali mesmo, atrás das moitas, ninguém estava vendo. Ele não se conteve e mandou ver! Quando para sua surpresa, a esposa de Seu Januário, a dona Avelina viu com muito espanto aquela cena. Haja amor ao movimento!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Transando e o espírito encostando

Celso e Manú se conheceram na balada, gostavam de raves, músicas eletrônicas, tomavam LSD, êxtase, entre uma dose de vodca e outra. Como solteiros eles levavam uma vida frenética, muito agitada, com muito extravaso. Se conheceram assim, e assim decidiram ficar, estabeleceram uma parceria e não havia mentira entre eles, não havia hipocrisia, continuaram a fazer as mesmas coisas juntos. Uma vez chegaram a ir numa zona, e ambos transaram com uma garota de programa; uma vida bem livre de preconceitos. Se amaram, e de tanto amor, não conseguiam se desgrudar mais, e assim casaram. Fizeram cerimônia e tudo.
Com os anos, todo relacionamento se transforma, as pessoas se transformam, e aí surgem os conflitos. Celso passou a estudar símbolos, política, teorias da conspiração, e junto com ideias religiosas que ele tirou de sua própria cabeça, com influências cristãs e evangélicas nutridas pela família, criou suas próprias teorias. Teorias que pra ele eram leis, eram a verdade absoluta, incontestáveis. E criou-se um fanatismo religioso dele com suas próprias ideias. Manú estranhou aquilo, mas ela achou que aquela seria apenas uma de suas muitas loucuras, e que logo ele desistiria daquele pensamento. Além de ele não esquecer aquela história toda, resolveu puxar sua esposa pro buraco, e passou a pegar no pé dela, proibiu droga, bebida, balada, tudo o que ela gostava. Dizia que ela deveria buscar Deus, ser uma esposa mais dedicada, pois se continuassem naquele caminho os bons laços de família não iriam se concretizar.
Que a liberdade seja defendida e Celso tinha todo o direito de acreditar no que quisesse, afinal, todo mundo acredita em alguma coisa, mesmo que essa coisa seja não acreditar em nenhuma coisa. O problema aqui está na relação humana, relação de dominação, que nem sempre é algo consciente, nem algo com fundo de maldade. Ele gostaria de que ele e sua família acreditassem em Deus e o buscassem da mesma maneira, formando um grupo unido física e espiritualmente. Ele pensava: se termos filhos, o que lhes ensinaremos? Como os educaremos?
A verdade é que o casal começava a ter cada vez mais discórdias. Manú adorava tomar uma cervejinha depois de um dia exaustivo de trabalho e fumar um cigarrinho. Nada demais, sem extrapolar. E isso era motivo pra preocupação, pra tensão. As vezes ela fazia isso escondido, e logo depois se arrependia pensando: que absurdo eu tomar uma cervejinha de leve escondida do meu marido, parece até que eu o estou traindo. E no discurso de Celso era como se fosse traição mesmo.
Depois de uma boa discussão, vinha os pedidos de desculpa, as juras de amor e fatalmente o sexo. O sexo conciliativo tem um sabor especial, sabor de renovação de votos. E nesse calor de emoções e prazeres físicos eles partiram para um papai e mamãe apaixonado. Com voracidade e virilidade Celso assumiu seu posto por cima de Manú e depois de uma meia dúzia de estocadas sentiu algo estranho e disse pra Manú, com aparência desanimada e ao mesmo tempo alucinada: Amor, eu to sentindo algo estranho, acho que to ficando possuído. Manú perplexa pergunta: o que? Que você disse? Ele repete e completa: Acho que tem um espírito encostando em mim, tem um demônio querendo encostar em mim! Broxura instantânea. Manú ficou puta e ao mesmo tempo tinha vontade de rir. Por sua cabeça passou uma cena hilária: um triângulo amoroso deles com a tal entidade. Hilário, porém broxante.