terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Correndo atrás do tarado


Nascida no interior de Goiás, Magali foi criada sem frescura. Irmã de 4 rapazes, todos mais velhos que ela, teve que aprender a se defender desde nova. Seus irmãos eram prevalecidos com ela e eram comuns as brigas dentro de casa. A pequena também aprendeu a gostar de uma boa confusão.
Anos passaram e Magali se formou na faculdade, arranjou emprego e numa cidade diferente passou a viver sua vida adulta. Ela gostava de academia, de esportes e da vida saudável. Conheceu Jorge numa festa, começaram a sair, a se envolverem, passearam pelas praias de Florianópolis, comeram camarão, ostra, fumaram gudan e aproveitaram dias incríveis na ilha.
Muito curiosa pela praia da Galheta, Magali pede para Jorge acompanhá-la até lá. Jorge fica admirado com a proposta de ir para a praia de nudismo, mas aceita o desafio. No dia certo, eles acordam cedo com a certeza de banharem-se nus. Sai do Campeche rumo à Lagoa, no caminho quase esbarram num hippie que andava de bike.
Chegando na Galheta, tiram mais do que depressa suas roupas. Caminham pelas areias, tomam banhos de liberdade. Era o dia de realizar um sonho. Porém ao caminhar eles percebem que estão sendo seguidos por um homem de seus cinqüenta e cinco anos, um coroa quase idoso que parecia estar curioso ou queria mesmo era ser voyeur.
Em um determinado momento eles seguem para o mato para ter um momento de privacidade. Nada de sexo ou algo parecido, somente privacidade pra conversar e ficar tranqüilos. Mas quando Magali percebeu que o coroa estava seguindo eles para a mata, ela não se agüentou e gritou com ele:
-Que você quer seu coroa safado? Sai fora!
O cara saiu, mas em poucos minutos não resistiu e voltou; foi quando Magali surtou, levantou e correu atrás do tarado. O coroa não sabia se aquilo era verdade, aquele mulherão correndo atrás dele. Será que ele iria apanhar? Não pagou para ver. Assim saíram os dois em disparada pela praia.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

As abelhas brasileiras

Conhecemos abelhas desde a infância, elas estão por toda a parte, polinizando flores para produção de frutos e alimentos. Porém a abelha mais popular aqui no Brasil é a Apis Mellifera, a famosa abelha européia e/ou africanizada que possui ferrão e pica quando se sente ameaçada. Sua ferroada pode levar até a morte caso a vítima tenha alergia ao seu veneno.
Porém muitos desconhecem as nossas abelhas nativas, abelhas genuinamente brasileiras que já estavam aqui antes dos europeus trazerem a Apis para as terras tupiniquins. São muitas espécies que se organizam de formas diferentes, algumas possuem mais de uma rainha, outras fazem ninho no barranco de terra, mas o que as diferenciam é principalmente o fato de não possuírem ferrão ativo, ou seja, elas não ferroam. São dóceis e podem viver perto de crianças sem perigo algum.
Geralmente as nossas abelhas produzem menos mel que a européia, porém é um mel seleto, de diferentes plantas, muitas nativas, com mais propriedades nutritivas e medicinais. Os enxames são bem menores também, menos populosos. São pequenas guerreiras que estão resistindo à extinção, já que constroem suas colmeias geralmente em troncos de árvores grossas, e como sabemos, estas estão se acabando com o desmatamento.
Fortalecendo a criação de abelhas nativas brasileiras, estamos salvando estas espécies da extinção e salvando a vegetação nativa, assim como ajudando na produção de alimentos dos quais nossas abelhas participam ativamente através da polinização. As abelhas brasileiras são tudo de bom!

quinta-feira, 1 de junho de 2017

O anarquismo e Nestor Machno

Lendo sobre o Movimento Anarquista nos deparamos com uma história muito interessante, a história de Nestor Machno e o Exército Negro. Era tempo de revolução na Rússia (1917), os socialistas tentavam derrubar os czares e acabar com o Império Russo. Dentro do grupo dos socialistas havia os bolcheviques, os trotskistas e os anarquistas, que agiam juntos contra o Exército Branco (exército imperial) e resistiam no território que seria no futuro a União Soviética.
Machno foi um dos comandantes do exército anárquico que botou para correr tanto o Exército Branco, como o Exército Vermelho (bolcheviques). O grande inimigo era o império, porém Machno desconfiava de Lenin e dos bolcheviques, pois a revolução era recente e ele não se agradava da organização dos comunistas que tinham sede de poder e buscavam uma ditadura do proletariado à sua maneira.
O Anarquismo teve raízes em algumas personalidades como Bakunin, Proudhon, Malatesta, Kropotkin e Emma Goldman. É um movimento anti-autoritário, contra a hierarquia, estado e concentração do poder. Já na I Internacional (Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), também conhecida como Primeira Internacional, foi uma organização internacional fundada em setembro de 1864. A primeira organização operária a superar fronteiras nacionais, reunindo membros de todos os países da Europa e também dos Estados Unidos) houve grande representatividade anarquista e debates acalorados com Marx. Um dos desentendimentos de Bakunin com Marx era que o primeiro discordava do direito à herança.
Revoltados e buscando uma autogestão onde não houvesse autoritarismo, os anarquistas da Ucrânia invadiram terras de ricos, distribuíram aos pobres e implantaram um governo onde todos participavam, onde todos trabalhavam, plantavam e colhiam. A terra era de todos e não havia chefe. Organizavam-se em Sovietes onde tomavam decisões políticas e administrativas conjuntamente sobre a sua comunidade.
Machno chama a atenção pelo apoio que teve da população, sendo jovem teve a audácia de enfrentar os bolcheviques e imperialistas e exigir independência organizativa perante os vermelhos. Escapou da morte algumas vezes e foi respeitado por Lenin e Trotsk. Durante três anos vingou a iniciativa machnovista e a Ucrânia viveu pela primeira vez na história à plenitude dos princípios do comunismo libertário, onde nenhuma autoridade externa teve poder ali.
Planejaram escolas de acordo com os métodos de Francisco Ferrer, um educador espanhol anarquista. Tinha como base a espontaneidade e a independência entre os alunos. Cada comuna possuía uma média de 300 pessoas. O Exército Insurgente chegou a ter 50 mil homens. Machno via no campo e na vida simples a única via para o anarquismo alcançar sua realização.

Trotsk foi canalha com os Insurgentes e armou ciladas para matar seus representantes e depois perseguir a população que não concordasse com ele. Machno conseguiu fugir para Paris onde morreu anos depois. Porém deixou, sem sombra de dúvidas, uma esperança para todos aqueles que acreditam que podemos viver felizes e com abundância sem o autoritarismo. 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Zé da Pinga

Em sua mocidade, Marcelo aproveitou o quanto pode. Experimentou muitas substâncias psicoativas e o álcool não ficou de fora. Aprendeu a beber depois dos vinte anos, e demorou ter maturidade para lidar com a bebida. Até os 30 anos de idade houve muitas aventuras alcoólicas, divertidas e não tanto.
Algumas vezes Marcelo voltava para a república de estudantes onde morava, totalmente embriagado, falava numa linguagem estranha, que não podia-se entender. Eram grunhidos, gemidos, desistências de tentativas de diálogo. Teve ocasiões que sequer conseguia enfiar a chave na fechadura e abrir a porta de seu lar. Dormiria na garagem mesmo, não fosse a ajuda de seus amigos que percebiam entre gracejos a situação caótica.
Dentre outras estripulias falava o que não devia, se machucava, caía, cantava alto na madrugada acordando os colegas de república. Gostava de se passar. Porém nunca perdeu a vergonha na cara. Sabia que era uma fase e que ia sair dessa, iria amadurecer. Mas ia se despedir dos vinte e poucos anos com categoria.
Em uma festa depois de tomar umas doze latinhas, comprou uma garrafa de cachaça e foi tomando de gole. Fez fiasco, caiu no mato, se sujou de barro. Depois não se lembrava de nada. Todavia revelou seu segredo. Ao passar de uma quantidade de bebida, ele se transformava, era como se ficasse possuído. E a entidade tinha até um nome: Zé da Pinga.
Era divertido, malandro, piadista. Queria conversar com todos, tirar onda. Sempre estava gargalhando, poucas vezes ficava na bad. Era um deus malandro como os exus africanos, Lock: o deus nórdico; ou o coyote, entre o índios norte-americanos. Uma mistura de sabedoria e gozação. Falava oitenta por cento de verdade e vinte por cento de mentira para depois rir do resultado.

Depois dos trinta anos Marcelo mudou, amadureceu, bebe, mais bebe pouco. Porém até hoje sabe que se brincar, se deixar o álcool entrar sem controle, o Zé da Pinga incorpora. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Bruno e a Moída

Laura era uma mulher independente, trabalhava em um salão de beleza e corria atrás do seu pão com vontade e coragem. Tinha separado do antigo marido havia poucos anos e sentia-se leve, solta, desobrigada de qualquer coisa. Cansou das manias e da vida boêmia do ex. Vinte e cinco anos casada aturando os mesmos defeitos não é pra qualquer um. Os defeitos no início parecem inofensivos, são quase imperceptíveis, porém depois vão se agravando, a paciência vai terminando, a raiva aumentando, até que se perde a paz. Coisa de humano.
Depois dos longos anos de casada, se transformou em conservadora. As pessoas se acostumam com coisas ruins também. E a pressão social, as companhias acabam influenciando de forma assustadora. Mesmo sendo de essência rebelde, passou a aceitar posturas e comportamentos repressores e opressores. Talvez ela nunca tenha pensado sobre isso, ou quem sabe travou muitas guerras consigo mesma e cansada, resolveu adiar a mudança que, diga-se de passagem, é muito dolorida.
 Gostava de viajar, conhecer outras culturas, ver se o Brasil era ruim mesmo como as pessoas diziam.  Viajou para alguns lugares da América do Sul e se encantou com a cultura latina americana. As músicas, a culinária, o povo. O sangue latino ferve, as pessoas interagem, são calorosas, amorosas, nervosas.  Aquela beleza lhe brilhava os olhos. Nunca se cansaria de peregrinar por esse continente abençoado.
E quando foi para o Peru, conheceu dentre outras pessoas o surinamês e também mochileiro Bruno Amoida.  Era negro, alto e professor de educação física em seu país. Gostava de caminhar longos trechos apreciando a natureza, acompanhado de seu cão. Sonhava em dar a volta ao mundo.  A amizade ficou colorida e foi na intimidade que Laura descobriu o segredo de Bruno.
Primeiro ela achou que era uma forma de conquista, para agradar ela. Depois desconfiou que era algo da cultura dele.  Achava diferente. Bruno era muito interessado na sexologia. Tinha coleções de livros sobre o assunto, utilizava anel peniano e outros acessórios sexuais. Laura ficou espantada com tudo aquilo, mas era preciso viver, se libertar, experimentar novas coisas, se permitir. E foi nesse terreno fértil que Bruno plantou sua mandioca.
No início era muito bacana, eles passavam o final de semana juntos, se “internavam” em casa onde namoravam sem pressa. Até que um dia depois de quatro horas tomando madeirada, já com os corpos encharcados de suor, cama molhada, a casa cheirando sexo, dor de cabeça ela se cansou e dando um basta, levantou, colocou suas roupas e pediu para que ele se retirasse que ela já não agüentava mais, estava assada, debilitada.
Bruno acatou ao pedido, mesmo sem entender direito o que se passava. Ela disse que não queria mais aquela vida, que os amigos já até zombavam dela. Estava cansada. E assim terminou o par romântico Bruno e a Moída.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Casa Grande e Senzala – resenha crítica e fichamento

Gilberto Freyre foi um grande sociólogo brasileiro, foi professor universitário e acima de tudo um grande pesquisador da cultura brasileira, do povo brasileiro, de sua miscigenação, da sua gastronomia. Lançou “Casa Grande e Senzala” na década de 1930, e com isso traz reflexões com a percepção da época. O autor revela muitos dados e documentos antigos que nos mostram como éramos (e em muito, continuamos a ser) em nosso comportamento e cultura nacional.
“Casa Grande e Senzala” revela a nossa raiz cultural, como se estruturou a organização social, econômica e a política em nosso país. Revela a nossa dívida histórica para com os povos oprimidos; tanto os indígenas , donos das terras invadidas que resistiram e foram aniquilados, quanto os negros, que foram tirados de sua terra para viver na escravidão.
Nesse livro, Gilberto mostra de forma até hilária nossos antigos costumes, escancara a cultura brasileira, sem esconder nossa tendência ao desbunde. Criamos um modelo capitalista parecido com a Europa, porém menos racional. E é perceptível até nos tempos atuais que o modelo parece “apertado em nossos corpos”. Somos um povo livre por natureza, cheio de vida e emoção  e merecemos um modelo de civilização que respeite nosso povo e cultura.
Além de gênio, Gilberto Freyre é também um homem de seu tempo. Com um olhar crítico é possível absorver da obra muito conhecimento dessa nossa cultura brasileira tão vasta.

Buscando salientar os principais tópicos, segue um breve fichamento do livro:

“Faltou-me quem me dissesse então, como em 1929 Roquette-Pinto aos arianistas do Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram simplesmente mulatos ou cafuzos os indivíduos que eu julgava representarem o Brasil, mas cafuzos e mulatos doentes.”
“Boas salienta o fato de que nas classes de condições econômicas desfavoráveis da vida os indivíduos desenvolverem-se lentamente, apresentando estatura baixa, em comparação com a das classes ricas. Entre as classes pobres encontra-se uma estatura baixa aparentemente hereditária, que, entretanto, parece suscetível de modificar-se, uma vez modificadas as condições de vida econômica. Encontram-se – diz Boas – proporções do corpo determinadas por ocupações, e aparentemente transmitidas de pai a filho, no caso do filho seguir a mesma ocupação que o pai.”
“Na Rússia, devido à fome de 1921 e 1922 – resultado não só da má organização das primeiras administrações soviéticas como do bloqueio da nova república pelos governos capitalistas – verificou-se  considerável  diminuição na estatura da população.”
“Refutando a teoria de Oliveira Viana – a inexistência da luta de classes na formação social do Brasil – lembra Astrojildo Pereira as guerras, os conflitos dos ‘senhores’ com os indígenas e com os negros fugidos (quilombolas) e da própria burguesia nascente com a aristocracia rural já estratificada. Também os conflitos dos representantes da Coroa, quando fortalecidos pelas descobertas das minas, com os caudilhos rurais. Estes, embora atravessando crises e sofrendo depressões de poderio, foram a força preponderante.”
“A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social no Brasil.”
“Salientam-se entre as conseqüências da hiponutrição a diminuição da estatura, do peso e do perímetro torácico; deformações esqueléticas; descalcificação dos dentes, insuficiências tiróidea, hipofisaria e gonadial provocadoras da velhice prematura, fertilidade em geral pobre, apatia, não raro infecundidade. Exatamente os traços de vida estéril e de físico inferior que geralmente se associam às sub-raças; ao sangue maldito das chamadas ‘raças inferiores’.”
“... o costume dos conventos medievais de tocar-se um sino à hora da comida: ‘serve elle para avisar o viajante vagando pelo campo, ou o desvalido da visinhança, que pode chegar à mesa do dono que está se apromptando; e, com effeito, assenta-se quem quer a essa mesa de hospitalidade. Nunca o dono repelle a ninguém, nem sequer pergunta-se-lhe quem he...”
“Também em Minas. Na tapera de Samangolê, Município de Paracatu, havia até há pouco um baile de noite de São João concorrido por gente de toda parte, que vinha em seges e cadeirinhas, escoltadas de pajens, etc. As orquestras tocavam a noite inteira. Mas ao amanhecer, tudo tinha desaparecido. Ultimamente esse mal assombrado se desencantou. Entre as mais famosas casas velhas mal-assombradas do Brasil está a do Padre Correia (Petrópolis) onde “conta-se que a alma dos veneráveis Correias por ali erravam à noite protestando contra o abandono da propriedade.”
“Aliás, em matéria de domesticação patriarcal de animais, d´Assier observou exemplo ainda mais expressivo: macacos tomando a bênção aos muleques do mesmo modo que estes aos negros velhos e os negros velhos aos senhores brancos. A hierarquia das casas-grandes estendendo-se aos papagaios e aos macacos.”
“O chão de todas as habitações e officinas deve ser levantado acima do terreno visinho: huma mistura de barro, tubatinga, área e bosta de boi applicada e soccada torna-se quase tão dura como ladrilho e serve bem para argamassar tanto os terreiros como os pavimentos.”
“A história social da casa-grande é a história íntima de quase todo brasileiro: de as vida doméstica, conjugal, sob o patriarcalismo escravocrata e polígamo; da sua vida de menino; do seu cristianismo reduzido à religião de família e influenciado pelas crendices da senzala.”
“... uma procissão de negros de Guiné em Pernambuco, organizados em confraria do Rosário, todos muito em ordem ‘uns traz outros com as mãos sempre alevantadas, dizendo todos: Ora pro nobis’.”
“Anchieta lamenta nos nativos, o que Camões já lamentara nos portugueses – ‘a falta de engenhos’, isto é, de inteligência, acrescida do fato de não estudarem com cuidado e de tudo se levar em festas, cantar e folgar; salientando ainda a abundância dos doces e regalos, laranjada, aboborada, marmelada, etc., feitos de açúcar.”
“Com relação ao Brasil, que o diga o ditado: ‘Branca para casar, mulata para f...., negra para trabalhar’.”
“Tais uniões devem ter agido como ‘verdadeiro processo de seleção sexual’, dada liberdade que tinha o europeu de escolher mulher dentre dezenas de índias. De semelhante intercurso sexual só podem ter resultado bons animais, ainda que maus cristãos ou mesmo más pessoas.”
“Através de certas épocas coloniais observou-se a pratica de ir um frade a bordo de todo navio que chegasse a porto brasileiro, a fim de examinar a consciência, a fé, a religião do adventício. O que barrava então o imigrante era a heterodoxia; a mancha de herege na alma e não a mongólica no corpo. Do que se fazia questão era da saúde religiosa: a sífilis, a bouba, a bexiga, a lepra entraram livremente trazidas por europeus e negros de várias procedências.”
“... o  Catolicismo foi realmente o cimento da nossa unidade.”
“A fuga das mulheres era mais difícil; de sorte que o rapto das índias foi largamente praticado pelos pretos quilombolas.”
O filho do senhor de engenho contraía sífilis quase brincando entre negras e mulatas ao perder a virgindade com doze ou treze anos. O brasileiro ostentava a marca de sífilis como quem ostentava uma ferida de guerra.
“Degradados, cristãos-novos, traficantes normandos de madeira de tinta que aqui ficavam, deixados pelos seus para irem se acamaradando com os indígenas; e que acabavam muitas vezes tomando gosto pela vida desregrada no meio de mulher fácil e à sombra de cajueiros e araçazeiros.”
“Não convém, entretanto, esquecer-se o sadismo da mulher, quando grande senhora, sobre os escravos, principalmente sobre as mulatas; com relação a estas, por ciúme ou inveja sexual.”
“À cultura do litoral atlântico – aquela com que primeiro se puseram em contato os europeus no Brasil – devem-se acrescentar os seguintes traços: o hábito de fumar tabaco em cachimbo; as aldeias cercadas de pau-a-pique; bons instrumentos de pedra; em vez do simples enterramento, os mortos colocados em urnas. Ao mesmo tempo que à cultura dos Jê-Botocudo ou Tapuia do Centro há que subtrair vários dos traços mencionados: o pouco de lavoura e tecelagem, o começo da astrologia encontrados entre tribos do norte e da costa, o fabrico e uso de instrumentos de pedra, o uso de rede para dormir. Acentua-se na cultura dos Jê-Botocudo traços que, segundo Wissler, os aproximam dos Patagônios, colocando-os em estádio inferior ao dos Tupi. Entre outros, o canibalismo.”
“... a presença de ‘algumas aves domesticadas como os jacamins; de roedores, tais como a cutia e a paca; e de alguns macacos.’ É verdade que nenhum desses animais a serviço domestico nem empregado no transporte de fardos, todo ele feito penosamente ao dorso do homem e principalmente da mulher.”  Entre os indígenas era quase somente pela companhia.
“Karsten encontrou entre os Jibaro o mito de ter havido época em que os animais falaram e agiram do mesmo modo que os homens. E ainda hoje – acrescenta – ‘o índio não faz distinção definida entre o homem e o animal. Acredita que todos os animais possuem alma, em essência da mesma qualidade que a do ser humano; que intelectual e moralmente seu nível seja o mesmo que o do homem’.”
“... a mulher não se agastava com o fato de o homem, seu companheiro, tomar outra ou outras mulheres.”
“... a elegante rainha Margarida de Navarra passava uma semana inteira sem lavar as mãos;”
“... advertia os jovens da nobreza a não assoarem o  nariz à mesa com a mão que estivesse segurando o pedaço de carne; que em 1530 Erasmo considerava decente assoar-se a pessoa a dedo, uma vez que esfregasse imediatamente com a sola d sapato o catarro que caísse no chão;”
“Dos indígenas parece ter ficado no brasileiro rural ou semi-rural o hábito de defecar longe de casa; em geral no meio de touça de bananeiras perto do rio. E de manhã, antes do banho.”
“O mesmo pesquisador foi encontrar entre os  Pueblos uma dança destinada especialmente a fazer medo aos meninos e incutir-lhes sentimentos de obediência e respeito aos mais velhos. Os personagens da dança eram uns como papões ou terríveis figuras de outro mundo, descidos a este para devorar ou arrebatar meninos maus. Stevenson informa-nos de dança semelhante entre os Zuñi, esta macabra, terminando na morte de uma criança, escolhida dentre as de pior comportamento da tribo: mas realizando-se com intervalos de longos anos. O fim, o moral, o pedagógico, de influir pelo medo ou pelo exemplo do castigo tremendo sobre a conduta do menino.”
Silvanus era o espírito mau da floresta.
“E entre os índios Gaulala, da California, Powers foi encontrar danças do diabo, que comparou às haberfeld treiber da Bavária – instituição para amedrontar as mulheres e as crianças e conservá-las em ordem.”
“Danças semelhantes de ‘diabo’ – ou Jurupari – havia entre os indígenas do Brasil; e com o mesmo fim de amedrontar as mulheres e as crianças e conservá-las em boa ordem.”
“Por uma espécie de memória social, como que herdada, o brasileiro, sobretudo na infância, quando mais instintivo e menos intelectualizado pela educação européia, se sente estranhamente próximo da floresta viva, cheia de animais e monstros, que conhece pelos nomes indígenas e, em grande parte, através das experiências e superstições dos índios.”
“Às vezes os padres procuraram, ou conseguiram, afastar os meninos da cultura nativa, tornando-a ridícula aos seus olhos de catecúmenos: como no caso do feiticeiro referido por Montoya. Conseguiram os missionários que um velho feiticeiro, figura grotesca e troncha, dançasse na presença da meninada: foi um sucesso. Os meninos acharam-no ridículo e perderam o antigo respeito ao bruxo, que daí em diante teve de contentar-se em servir de cozinheiro dos padres.”
“Criminoso ou escravo fugido que se apadrinhasse com senhor de engenho livrava-se na certa das iras da justiça ou da polícia. Mesmo que passasse preso diante da casa grande bastava gritar:  - ‘Valha-me, seu Coronel Fulano.’ E agarrar-se à porteira ou a um dos moirões da cerca. Da mesma maneira que outrora, em Portugal, refugiando-se o criminoso à sombra das igrejas, escapava ao rigor da justiça Del-Rei.”
O Brasil, no início da colonização era somente pau-de-tinta e almas para Jesus Cristo.
“Deixemo-nos de lirismo com relação ao índio. De opô-lo ao português como igual contra igual. Sua substituição pelo negro – mais uma vez acentuemos – não se deu pelos motivos de ordem moral que os indianófilos tanto se deliciam em alegar: sua altivez diante do colonizador luso em contraste com a passividade do negro. O índio, precisamente pela inferioridade de condições de cultura – a nômade, apenas tocadas pelas primeiras e vagas tendências para a estabilização agrícola – é que falhou no trabalho sedentário. O africano executou-o com decidida vantagem sobre o índio principalmente por vir de condições de cultura superiores. Cultura já francamente agrícola. Não foi questão de altivez nem de passividade moral.”
“Cantavam e dançavam as freiras com tal algazarra que o viajante chegou a acreditar que estivessem possuídas de algum espírito zombeteiro. Depois do que representaram uma comédia de amor.”
“Mas outros característicos pagãos do culto de São Gonçalo conservam-se em Portugal. Entre outros, as enfiadas de rosários fálicos fabricados de massa doce e vendidos e ‘apregoados em calão fescenino’ – informa Luís Chaves – pelas doceiras à porta das igrejas. E já nos referimos ao costume das mulheres estéreis de se friccionarem ‘ desnudadas’, pelas pernas da imagem jacente do Bem-Aventurado, enquanto os crentes rezam baixinho e não erguem os olhos para o que não devem ver.’ A fricção sexual dos tempos pagãos acomodada a formas católicas.”
“A maior delícia do brasileiro é conversar safadeza.”
“Um elemento de colonização portuguesa do Brasil, aparentemente puro, mas na verdade corruptor, foram os meninos órfãos trazidos pelos jesuítas para seus colégios. Informa Monteiro que nos ‘livros nefando são citados com relativa freqüência’.”
“ A freqüência da feitiçaria e da magia sexual entre nós é outro traço que passa por ser de origem exclusivamente africana. Entretanto o primeiro volume de documentos relativos às atividades do Santo Ofício no Brasil registra vários casos de bruxas portuguesas. Suas praticas podem ter recebido influencia africana: em essência, porem, foram expressões do satanismo europeu que ainda hoje se encontra entre nós, misturado a feitiçaria africana ou indígena. Antônia Fernandes, de alcunha Nóbrega, dizia-se aliada do diabo: as consultas, quem respondia por ela era ‘certa cousa que falava, guardada num vidro’. Magia medieval do mais puro sabor europeu. Outra portuguesa, Isabel Rodrigues, ou Boca-Torta, fornecia pós miríficos e ensinava orações fortes. A mais celebre de todas, Maria Gonçalves, de alcunha Arde-lhe-o-rabo ligavam-se quase todos a problemas de impotência e esterilidade. A clientela dessas feiticeiras coloniais parece que era quase exclusivamente de amorosos, infelizes ou insaciáveis.”
Outra figura que era utilizada para amedrontar era o “homem marinho – terrível devorador de dedos, nariz e piroca de gente”.
“Há o akpalô fazedor de alô ou conto; e há o arokin, que é o narrador das crônicas do passado. O akpalô é uma instituição africana que floresceu no Brasil na pessoa de negras velhas que só faziam contar histórias. Negras que andavam de engenho em engenho contando histórias às outras pretas, amas dos meninos brancos. José Lins do Rego no seu ‘Menino de Engenho’, fala das velhas estranhas que apareciam pelos bangüês da Paraiba: contavam histórias e iam-se embora. Viviam disso. Exatamente a função e o gênero de vida do akpalô.”
“A linguagem infantil brasileira, e mesmo a portuguesa, tem um sabor quase africano: Cacá, pipi, bumbum, tentem, neném, tatá, papá, papato, lili, mimi, au-au, bambanho, cocô, dindinho, bimbinha.”
“As Antônias ficaram Dondons, Toninhas, Totonhas; as Teresas, Tetés; os Manuéis, Nezinhos, Mandus, Manés; os Franciscos, Chico, Chiquinho, Chicó; os Pedros, Pepés; os Albertos, Bebetos, Betinhos. Isto sem falarmos das Iaiás, dos Ioiôs, das Sinhás, das Manus, Calus, Bembens, Dedés, Marocas, Nocas, Nonocas, Gegês.”
Segue uma das canções que as mulatinhas do engenho cantavam para os filhos dos senhores:
“Meu branquinho feiticeiro,
Doce ioiô meu irmão,
Adoro teu cativeiro,
Branquinho do coração,
Pois tu chamas de irmãzinha
A tua pobre negrinha
Que estremece de prazer,
E vais pescar à tardinha
Mandi, piau e corvina
Para a negrinha comer.”

“Entre outras, a erva conhecida no Rio de Janeiro – segundo Manuel Querino – por pungo e por macumba na Bahia; e em Alagoas por maconha. Em Pernambuco é conhecida por maconha; e também, segundo temos ouvido entre seus aficionados, por diamba ou liamba. Diz Querino que o uso da macumba foi proibido pela Camara do Rio de Janeiro em 1830, o vendedor pagaria 20mil de multa; o escravo que usasse seria condenado a 3 dias de cadeia. Já fumamos a macumba ou diamba. Produz realmente visões e um como cansaço suave; a impressão de quem vola cansado dum baile, mas com a musica ainda nos ouvidos. Parece, entretanto, que seus efeitos variam consideravelmente de individuo para individuo. Como seu uso se tem generalizado em Pernambuco, a polícia vem perseguindo com rigor os seus vendedores e consumidores – os quais fumam-na em cigarros, cachimbos e alguns até a ingerem em chás.”
“Alguns consumidores da planta, hoje cultivada em várias partes do Brasil, atribuem-lhe virtudes místicas; fuma-se ou ‘queima-se a planta’ com certas intenções, boas ou más. Segundo Querino, o Dr. J.R. da Costa Dória atribui-lhe também qualidade afrodisíaca. “
“Os viajantes que aqui estiveram no século XIX são unânimes em destacar este ridículo da vida brasileira: os meninos, uns homenzinhos à força desde os nove ou dez anos. Obrigados a se comportarem como gente grande: o cabelo bem penteado, às vezes frisado à Menino Jesus; o colarinho duro; calça comprida; roupa preta; botinas pretas; o andar grave; os gestos sisudos; um ar tristonho de quem acompanha enterro.”
“Os pretos foram os músicos da época colonial e do tempo do Império.”
“...houve não só banda de música de negros, mas circo de cavalinhos em que os escravos faziam de palhaços e de acrobatas. Muitos acrobatas de circo, sangradores, dentistas, barbeiros e até mestres de menino – tudo isto foram os escravos no Brasil; e não apenas negros de enxada ou de cozinha.”
“Imagine-se a saudade com que os meninos de engenho, acostumados a uma vida toda de vadiação – banho de rio, arapuca de apanhar passarinho, briga de galo, jogo de trunfo na casa de purgar com os negros e os muleques, chamego com as primas e as negrinhas – deixavam essas delícias para virem de barcaça ou a cavalo, parando pelo caminho nos engenhos dos parentes e conhecidos dos pais, estudar nos internatos...”
“Os discípulos dos padres Cardim e Faria ‘sem temor de Deus nem vergonha dos homens’ andavam o dia inteiro como uns bodes, pulando cercas e saltando valados, atrás de escravas e de ‘outras mulheres que para esse fim mandam vir da cidade’.”
“Entre os privilégios negados à gente de cor achava-se o sacerdócio; por esse motivo grande empenho faziam as famílias de avoengos mais respeitáveis em ter entre seus membros padres ou religiosos; era uma prova de pureza de sangue...”
“É curioso observar que Minas Gerais parece ter sempre tomado a dianteira nos movimentos de democratização social do Brasil, contra os preconceitos de branquidade e de legitimidade.”
“De modo que talvez fossem melhores os suplícios de que nos fala o Padre Sequeira:  o menino ajoelhado em caroço de milho durante duas, três, quatro horas; os bolos das várias palmatórias pedagógicas e domésticas – a pele de cação, a de jacarandá e a maior para os valentões, de gramari. Em Minas dizem que certo padre do Caraça, Padre Antunes, ‘amarrava o lenço no braço para ter mais força de puxar a palmatória’. A pedagogia  como a disciplina patriarcal no Brasil apoiou-se sobre base distintamente sadista. Resultado, em grande parte, das condições de seu inicio: uma pedagogia e uma disciplina de vencedores sobre vencidos, de conquistadores sobre conquistados, de senhores sobre escravos. É um estudo a fazer-se, o das várias formas e instrumentos de suplícios a que esteve sujeito o menino no Brasil em casa e no colégio: as várias espécies de palmatórias, a vara de marmelo, às vezes com alfinete na ponta, o cipó, o galho de goiabeira, o muxicão, o cachação, o puxavante de orelha, o beliscão simples, o beliscão de frade, o cascudo, o cocorote , a palmada.”
“Refere Taunay que em muitas fazendas o preparo do arroz, indispensável nas mesas brasileiras, era delegado a um especialista.”



segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Ávido por reciclar

Todo dia é dia de transformação, a vida não é estática e por isso devemos nos permitir mudar, evoluir, pedir perdão. Neilton estava aprendendo a ter ideias novas, quebrando tabus, praticando mais ações de amor ao próximo. Havia momentos de incômodo, de incertezas, de falta de estabilidade espiritual; mas ele percebeu que mudanças não são fáceis, mas são necessárias. Tudo muda, e nós não podemos ficar de fora.
Seus amigos da faculdade, pessoal boa gente, que além de bem informados e inteligentes eram de um coração enorme, não havia dúvidas de que se alguém deveria ser ouvido, eram essas grandes personalidades. Eles eram simpáticos da permacultura, da reciclagem, dos movimentos sociais, do apoio às minorias e marginalizados, eram pessoas do bem. E Neilton aprendeu com eles a realizar a coleta seletiva dos resíduos domésticos, vulgo lixo.
Neilton entendeu que a reciclagem era algo necessário, que o nosso planeta não aguentaria tanto consumismo, tanto plástico, tanto vidro e outros materiais não naturais, que demoram séculos pra se decompor na natureza. Poucos eram os interessados em saber o que ocorria nos aterros sanitários, também conhecidos como lixões. Pra onde vai tanto material? Como é tratado esse material?
No começo é difícil separar todo o lixo, memorizar os dias e lugares certos de deixar o lixo reciclável. Mas com persistência ele foi se acostumando, logo ele se tornou uma pessoa muito preocupada com o processo de reciclagem. Chegava a pregar as boas novas para os amigos que ainda não sabiam ou eram relaxados. Às vezes ele era até chato.

Numa terça feira ele estava em casa e ainda não havia passado o caminhão que recolhia os recicláveis, deveria ter passado no dia anterior e ainda nada. Neilton pensou em ligar para o departamento da prefeitura que era responsável pelo recolhimento, mas na hora deu aquela vontade louca de ir ao banheiro dar uma barrigada. E eis que ele ouve o barulho do outro caminhão, o de lixo comum, se aproximando de sua casa. Sem pensar duas vezes ele começa a gritar: “Espera! Espera!”. Ele percebeu que os funcionários não iriam esperar e saiu correndo atrás, nu, cagado. Deu aquela última limpada com papel higiênico já no corredor, na área externa da casa, enfiou na sacolinha e entregou orgulhoso para o lixeiro que assistiu aquilo tudo chocado. Não se conteve e ainda perguntou: “ainda hoje passa o caminhão dos recicláveis?”