sábado, 12 de dezembro de 2015

A velha do Maranhão

Evaristo nasceu no sul do Brasil, passou sua infância e adolescência lá, onde estudou, fez amizades, namorou algumas garotas. Sempre foi ensinado a competir pelas melhores oportunidades, pelo melhor posto. Tendência capitalista que o sul do Brasil herdou da Europa. Porém ele nunca gostou muito da ideia, e ao longo do seu amadurecimento ele foi percebendo que podia fazer diferente, podia optar por uma vida simples, que fugisse à regra do consumismo desenfreado, que fosse mais honesta sobre seus sentimentos de cooperação com os amigos e vizinhos.
Primeiro ele desistiu da ideia de ter um emprego. O emprego é como uma cadeia que prende o homem à sua mesa, ao seu escritório, oficina; inibe a criatividade, a autonomia, transforma o homem em uma engrenagem da grande máquina capitalista que enriquece os patrões, que são muito poucos comparados à imensa maioria proletária. Evaristo chegou a ter alguns negócios, pra pagar as contas, mas não se perdia no labirinto da ganância e do egoísmo.
Decidiu ir morar no norte do país, mais especificamente no estado do Maranhão. Conseguiu um sítio barato no meio do mato, no sul do estado, 30 quilômetros da cidade mais próxima, 5 quilômetros do vizinho mais próximo. Era uma vida nova, com sua mulher e seus dois filhos pequenos. Pescava no rio, criava suas galinhas, plantava alguma coisa e viviam sem luz elétrica e sem banheiro. A cagança rolava no mato. Jogava-se a enxada no ombro e seguia mata adentro procurando o local mais tranquilo e agradável. Era puro prazer. O cheiro das ervas e flores relaxava seu intestino.
Muitas histórias vivenciou Evaristo e sua bela família. Avistaram bichos em extinção, viram pegadas de onça perto da casa, cobras de todo tipo, mas pra eles era tudo aprendizado e alegria. Dormiam e acordavam com o sol. Se sentiam parte do todo, energia do mesmo planeta.
Uma coisa que lhe chamou muito a atenção foi o povo maranhense. Os que viviam na região eram bem caboclos. Mestiços de índio e negro com uma pitada de branco: uma receita tradicional brasileira. Porém eles tinham costumes e jeito bem aborígene, estilo homem das cavernas. Eles viviam da mata, da pesca, caça. Pouco se plantava; era mais a mandioca e o arroz, que era muito admirado pelos mesmos. De resto, eles não se interessavam muito pelo plantio.
O Barbosa, vizinho dele, não queria saber de muito trabalho. Até pra caçar, ele armava uma rede no alto e ficava deitado com a espingarda, esperando o bicho vir até ele. Esse mesmo Barbosa, morou numa casa de pau-a-pique que depois de muitos anos começou a entortar pra cair, e esse caboclo só saiu de dentro depois que caiu uma parte. Aí com muito esforço ele construiu uma nova casa.
Mas o que mais chamou a atenção de Evaristo foi a esposa de um outro vizinho. Seu Ronildo tinha um sítio ali perto e um dia convidou Evaristo e sua família para um almoço de aniversário. Foi quando apresentou sua esposa. Dona Nene tinha 1,40 metros de altura, forte, cabeça chata mas de um jeito que não parecia humano. Um cranio espetacular. Tinha dentes pequenos, mas afiados, grandes gengivas, olhos pequenos, mãos tremulas e com pouca sensibilidade. Ela falava em grunhidos, quase não dizia palavras. Tinha reações bestiais. Nas palavras de Evaristo aquela senhora parecia homo sapiens, uma evolução anterior à nossa. Intermediário entre o macaco e o homem moderno. Os filhos de Evaristo tinham medo dela. No primeiro dia que a viram, choraram de medo.
E entre outras preciosidades Evaristo guardou aquilo na memória de bons tempos de sertão.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Tocando por uma causa nobre

Tocando por uma causa nobre

Eusébio era um homem simples, criado no interior do Tocantins sempre foi um homem direto, honesto e transparente. Era amigo de todos, uma pessoa da paz, sempre querido pelos seus conterrâneos. Casou com Maria das Dores e teve 4 filhos, dois homens e duas mulheres. Além da sua família, sua grande paixão era a música. Exímio violonista, aprendeu a tocar com um amigo de seu pai, e desde criança criou amor pelo instrumento e até então não se imaginava sem o violão. Gostava de música popular brasileira, guitarradas, dentre outros sons do norte do Brasil, e passava tardes nas casas de amigos tocando e compondo músicas.
Além das muitas apresentações musicais, das quais tirava seu ganha pão, ele dava algumas aulas de violão pra complementar a renda. Ser músico profissional nesses dias não era nada fácil, raro eram as pessoas que viviam da música. Mas para Eusébio isso não era motivo pra desamimar. Seu sonho era aquele, viver de sua paixão. E ele pensava, analisando suas prioridades de vida, que se fosse pra viver com pouco e ser feliz ele preferiria mil vezes a simplicidade. Afinal, pra que servem os luxos sem a felicidade?
Criava umas 10 galinhas no terreiro, além de cuidar de seu pequeno pomar. Nas poucas vezes que foi pra cidade grande, já logo queria estar de volta ao seu querido interior, onde ouve-se os passarinhos ao invés de buzinas de carro e moto, contempla-se flores coloridas ao invés de avenidas em marginais cinzas, paredes pichadas, onde respira-se ar puro e come-se alimentos sem veneno. O que mais lhe intrigava era ver um monte de gente vivendo um em cima do outro, engaiolados, sem tocar na terra de seu quintal e que utilizavam de grandes caixas metálicas que subiam e desciam mecanicamente transportando esses infelizes. Ele nem gostava de entrar nessas habitações. Era uma coisa muito esquisita.
Certo dia, Zé Miguel chamou Eusébio e contou que tinha plano de ajudar uma Organização Não Governamental que cuidava de crianças especiais, explicou como funcionava o trabalho daquele pessoal e toda a ajuda que eles representavam para a região. Tinha muitas pessoas que não sabiam que fariam com seus filhos, por falta de instrução e dinheiro, e essa instituição ajudava com escola, alimento, acompanhamento médico, e muitos outros tipos de apoio. Eusébio ficou maravilhado com a prestatividade daquelas pessoas. Zé Miguel convidou ele para participar do projeto, onde eles fariam um show pra arrecadar dinheiro pra Instituição.
O show foi feito, encheu, e no dia seguinte eles foram lá na ONG levar o dinheiro. A diretoria ficou muito feliz com a ajuda e pediu que eles fossem apresentados às crianças. Eles iriam fazer uma pequena apresentação para todos ali. Prepararam os instrumentos, o som, se ajeitaram e Zé Miguel pegou o microfone e se apresentou:
-É com muita satisfação que venho aqui tocar música para vocês. Sou Zé Miguel, percussionista e amigo de vocês. Obrigado.
Eusébio estava faceiro, sorridente, orgulhoso. Aí foi a vez dele de falar:
-Eu sou o Eusébio, toco violão, e é um grande prazer estar aqui e tocar pros mongoloides, pessoal tão legal.
Alguns riram, outros ficaram assustados, outros calados. E o show foi um sucesso.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Xingando mulher porca

Xingando mulher porca

Vangelder era um senhor dos seus setenta e cinco anos, era engenheiro mecânico e trabalhava numa grande empresa no sul do Brasil. Era metódico, tinha explicação pra tudo, e tinha um senso apurado de civilidade. Era bélgico e tinha vindo para o Brasil no início dos anos oitenta, com seus 45 anos. Mudança trágica que ele enfrentou por sua mulher Marcília, gaúcha que ele conheceu na Alemanha e se apaixonou. Ele disse à ela depois de muita aporrinhação: Ou vamos para o Brasil agora, ou nunca mais! Eles foram. Casou tarde, pois entendia que casamento era pra vida toda. Então antes de casar, vivenciou muitas coisas, morou em outros países, morou dentro de um veleiro por 7 anos, teve várias namoradas e assim casou-se sem se arrepender, muito. Casou com 42 anos, mas poderia ter enrolado até uns 45, disse ele uma vez aos amigos de seu único filho.
No Brasil, Vangelder enfrentou a crise eterna de ser latino-americano. Não era, mas teve que viver como um. Pegou a fase final da ditadura militar, corcéis, fuscas e kombis enchiam as ruas brasileiras. A inflação era absurda, havia muita pobreza e fome, e os políticos eram blindados contra qualquer tipo de ataque do povo. As pessoas não estavam acostumadas com liberdade, com educação livre, com a consciência de coletividade urbana. Furava-se sinal de trânsito, não usava-se cinto de segurança, era comum pagar propina para policiais rodoviários e não rodoviários, entre outros atrasos que para Vangelder lhe causavam indignação e até uma vontade de ser justiceiro. É aí que começa nossa história.
Era meados de outubro e no Rio Grande do Sul pairava o frio. Aquele inverno tinha sido intenso, a água congelava nos encanamentos e quando abria-se a torneira, não vinha nada. Para aquecer o motor do Corcel 1973 era preciso liga-lo uma hora antes, no mínimo, e agasalha-lo com uma coberta como à uma criança. Vangelder como de costume acordou cedo e foi para o trabalho, lá encontrou seus colegas, e enquanto faziam um projeto de um silo para uma fazenda de soja, um deles começou a falar do trânsito caótico que havia em Porto Alegre e da falta de respeito com a lei de trânsito por parte das pessoas: Desse jeito vamos terminar como animais numa selva, onde só o mais forte sobrevive! Vangelder aproveitou o ensejo e encheu a boca pra falar da Bélgica, de como havia um senso apurado de civilidade, onde se faziam leis para serem seguidas, onde a pessoa podia sair de casa e deixar sua porta aberta. Todos concordaram com ele e lamentaram o Brasil estar tão aquém dessa evolução de pensamento coletivo.
Veio a hora do almoço e Vangelder partiu para seu restaurante de costume. Não era seu preferido, mas tinha um bom buffet, variado e saudável, e como ele bem sabia, l'homme est ce qu'il mange, e assim ele caminhava já imaginando seu déjeuner.
Quando o nosso gringo estava chegando em seu destino, viu uma cena deplorável: uma senhora de seus cinquenta anos que já deveria ter vergonha na cara, joga a embalagem de seu lindo bombom na calçada, sendo que havia uma lixeira à 10 metros dali. Vangelder se indignou, e contendo a emoção, disse em português carregado de sotaque: Senhora, senhora! A senhora deixou cair um papel no chão! A mocreia com ar de desdém olhou para aquele senhor europeu e disse: Não caiu não, foi eu que joguei mesmo! Ah! Aí Vangelder não se aguentou, com os olhos arregalados e vermelhos, com o corpo todo tremendo de raiva e com toda a força de seus pulmões gritou em alto e bom som: Prostituta, prostituta, prostituta!
Esse ato de selvageria, de justiça com as próprias mãos, de lição de moral, lhe bastou, e com sensação de trabalho feito, foi almoçar, sabendo no fundo que era um professor das ruas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Libertinagem no MST

Num desses projetos universitários de intercâmbio, João Valente se inscreveu e esperava ansiosamente a oportunidade de conviver com um grupo do movimento social que mais admirava, o MST. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra estava lutando por adquirir respeito e credibilidade junto à população em 2014, principalmente com os Liberais. Era um movimento sério em sua maior parte e buscavam a igualdade social através da distribuição de terra improdutiva (geralmente de latifundiários) para a população desprovida de terra e que queria trabalhar na terra, produzindo. João contava os dias desde 8 meses atrás, quando se inscreveu. Como um marxista convicto começou a imaginar a revolução rural, a utopia da vida campestre. Filosofia social permeou sua mente por dias.
Valente queria ver o dia-a-dia daqueles trabalhadores, daquelas pessoas simples e maravilhosas. O dia chegou e ele pegou o ônibus, percorreu mais de 500 quilômetros, Brasil adentro, pequenas cidades que resistiam ao espírito selvagem do capitalismo, que enfeitavam suas ruas com flores, que conversavam demoradamente com seus vizinhos, que saiam de casa e despreocupadamente deixavam suas portas sem trancar. João Valente chegou na cidade, desceu do ônibus e foi se informar de como chegaria ao sítio. Descobriu que havia uma van do assentamento na cidade naquele momento, descarregando produtos artesanais. Foi ao encontro deles que o receberam com muito carinho.
Ao saírem rumo ao campo João Valente sentiu a energia mudar, o silêncio chegar, a paisagem melhorou: parecia que seus olhos lhe agradeciam a vista, vales verdes; seu olfato sentia a mata cheirosa, viva. Quando chegou ao assentamento, sentiu o calor humano daquele grupo que o recebeu muito bem, com comidas produzidas por eles mesmos, com um espaço com cama, lençóis limpos, recebido como membro da família de um senhorzinho chamado Januário, que residia naquela casinha modesta, feita de madeira. Seu Januário era muito simples, criado na roça, foi tentar a vida na cidade na sua meia idade, mas foi só desilusão, sofrimento com o egoísmo que a cidade produz nos seres humanos que lá vivem, sem contar o ritmo frenético que as pessoas ignoram ser anormal.
Conviveu com eles por duas semanas, ajudando na roça, na capina, na colheita e todo tipo de trabalho realizado no meio rural. Conversava sobre o movimento, sobre o poder popular, sobre as assembleias e todo o sentimento de luta e amor ao movimento. Histórias de militantes notáveis, de situações duras e de alegria, tudo que um movimento social passa. De noite, tocavam modas no violão ao redor do fogão à lenha, foi muito agradável aqueles dias.
No mesmo período que João intercambiou no MST, outros rapazes e moças também tiveram a oportunidade daquele convívio. Valente conheceu um pessoal muito interessante, e entre eles duas garotas muito especiais e lindas. Belas e inteligentes, ele ficou apaixonado. Não demorou muito ele ficou com uma e com a outra. Elas sabiam, eram amigas. Mas isso não era problema para elas, não havia ciúmes entre elas.
Numa noite dessas João Valente agarrou Sabrina e depois de uns bons amassos, ela deu a ideia de irem pro quarto da casa, onde João dormia. Ele tentou tirar essa ideia da cabeça dela, porém não havia onde ir, e eles queriam muito consumir o ato. Não teve jeito, foi ali mesmo, com a família de Seu Januário do outro lado daquela parede fina de madeira. Todos ouviram os uivos de gozo do casal naquela noite silenciosa.
Abalado mas não derrotado psicologicamente, o casal seguiu suas tarefas e mais a noite foi a vez de Ritinha provocar João com uma pegada certeira. Com a mão cheia, Ritinha pediu pra João penetrá-la, ali mesmo, atrás das moitas, ninguém estava vendo. Ele não se conteve e mandou ver! Quando para sua surpresa, a esposa de Seu Januário, a dona Avelina viu com muito espanto aquela cena. Haja amor ao movimento!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Transando e o espírito encostando

Celso e Manú se conheceram na balada, gostavam de raves, músicas eletrônicas, tomavam LSD, êxtase, entre uma dose de vodca e outra. Como solteiros eles levavam uma vida frenética, muito agitada, com muito extravaso. Se conheceram assim, e assim decidiram ficar, estabeleceram uma parceria e não havia mentira entre eles, não havia hipocrisia, continuaram a fazer as mesmas coisas juntos. Uma vez chegaram a ir numa zona, e ambos transaram com uma garota de programa; uma vida bem livre de preconceitos. Se amaram, e de tanto amor, não conseguiam se desgrudar mais, e assim casaram. Fizeram cerimônia e tudo.
Com os anos, todo relacionamento se transforma, as pessoas se transformam, e aí surgem os conflitos. Celso passou a estudar símbolos, política, teorias da conspiração, e junto com ideias religiosas que ele tirou de sua própria cabeça, com influências cristãs e evangélicas nutridas pela família, criou suas próprias teorias. Teorias que pra ele eram leis, eram a verdade absoluta, incontestáveis. E criou-se um fanatismo religioso dele com suas próprias ideias. Manú estranhou aquilo, mas ela achou que aquela seria apenas uma de suas muitas loucuras, e que logo ele desistiria daquele pensamento. Além de ele não esquecer aquela história toda, resolveu puxar sua esposa pro buraco, e passou a pegar no pé dela, proibiu droga, bebida, balada, tudo o que ela gostava. Dizia que ela deveria buscar Deus, ser uma esposa mais dedicada, pois se continuassem naquele caminho os bons laços de família não iriam se concretizar.
Que a liberdade seja defendida e Celso tinha todo o direito de acreditar no que quisesse, afinal, todo mundo acredita em alguma coisa, mesmo que essa coisa seja não acreditar em nenhuma coisa. O problema aqui está na relação humana, relação de dominação, que nem sempre é algo consciente, nem algo com fundo de maldade. Ele gostaria de que ele e sua família acreditassem em Deus e o buscassem da mesma maneira, formando um grupo unido física e espiritualmente. Ele pensava: se termos filhos, o que lhes ensinaremos? Como os educaremos?
A verdade é que o casal começava a ter cada vez mais discórdias. Manú adorava tomar uma cervejinha depois de um dia exaustivo de trabalho e fumar um cigarrinho. Nada demais, sem extrapolar. E isso era motivo pra preocupação, pra tensão. As vezes ela fazia isso escondido, e logo depois se arrependia pensando: que absurdo eu tomar uma cervejinha de leve escondida do meu marido, parece até que eu o estou traindo. E no discurso de Celso era como se fosse traição mesmo.
Depois de uma boa discussão, vinha os pedidos de desculpa, as juras de amor e fatalmente o sexo. O sexo conciliativo tem um sabor especial, sabor de renovação de votos. E nesse calor de emoções e prazeres físicos eles partiram para um papai e mamãe apaixonado. Com voracidade e virilidade Celso assumiu seu posto por cima de Manú e depois de uma meia dúzia de estocadas sentiu algo estranho e disse pra Manú, com aparência desanimada e ao mesmo tempo alucinada: Amor, eu to sentindo algo estranho, acho que to ficando possuído. Manú perplexa pergunta: o que? Que você disse? Ele repete e completa: Acho que tem um espírito encostando em mim, tem um demônio querendo encostar em mim! Broxura instantânea. Manú ficou puta e ao mesmo tempo tinha vontade de rir. Por sua cabeça passou uma cena hilária: um triângulo amoroso deles com a tal entidade. Hilário, porém broxante.  

domingo, 30 de agosto de 2015

Chorando pelado

Andinho era um rapaz direito, cumpria com seus deveres de cidadão, de homem, não gostava de falcatrua. Andinho era homem fiel, honesto, gostava do que era certo e nem passava pela sua cabeça mentir para sua mulher. Ele trabalhou por muito tempo como comerciante na cidade, trabalhava de dia e de noite pra alcançar sua meta. Porém ele sabia que esse ritmo de trbalho, de correria, não lhe fazia bem. Não faz bem pra nenhum ser humano trabalhar mais que seis horas, muito mais pra ele que trabalhava dez horas por dia!
Camila, sua namorada, era uma moça determinada, tinha vinte e cinco anos e já possuía seu consultório de psicologia e já buscava algo melhor, com mais espaço, mais glamour para seus pacientes. Gostava de roupas de mulher mais velha, de meia idade, pois aquelas se ajustavam à sua idade, dizia. Andinho preferia que ela usasse roupas de mulher de vinte e poucos.
O casal se conhecia havia muitos anos, foram amigos de infância, e depois de anos surgiu um interesse sexual, o que os levou ao namoro. Eles se conheciam muito bem. Os pais dos dois adoraram e torciam para que o casal desse certo, com a benção de Deus. Camila, apesar de ser muito parceira, começou a plantar ideias na cabeça de Andinho, ela dizia que ele deveria ser mais centrado, mais ambicioso, subir os degrais do sucesso e das classes. Andinho começou a se encomodar com essa história, sentia de alguma forma uma ansiedade, uma pressão, que vinha mas ele não sabia como. Afinal, ele era muito bem decidido com suas ideologias. Era um rapaz trabalhador sim, e até tinha algumas ambições, porém acreditava num futuro possível onde haveria menos desigualdade, mais liberdade e mais amor. Não era certo passar por cima de ninguém pra obter vantagem financeira, isso é pros que ignoram a coletividade.
Certo dia, Andinho chegou do trabalho, tomou um belo banho quente, relaxou, depois ligou pra Camila e combinou de se encontrarem. Ele estava com saudade dela. Apesar do namoro ter começado fazia pouco tempo, ele sentia como se namorassem há muito tempo. Ele tinha boas expectativas com relação ao futuro com Camila. Jantaram juntos, conversaram e entre um folguedo e outro, foram diminuindo suas peças de roupa, até estarem como vieram ao mundo. Entre uma carícia e outra, Camila voltou a falar sobre a ascensão social necessária, e Andinho sentiu um aperto no peito, uma angústia, que foi aumentando conforme ela ia falando, sua voz se tornara chata, seu tom era estridente e antipático, Andinho não aguentou mais e se impos, disse que as coisas não eram bem assim e que ele tinha valores de homem do bem, que acreditava na evolução da consciência, onde todos se tratariam melhor e que a comunidade poderia viver uma autogestão anárquica. Camila falou duro com ele, apesar de ter aveludado a voz, ela era direta, dizia que se ele pensasse assim iria estagnar, seria passado pra trás, feito de trouxa, pois ninguém estava nessa onda dele e as pessoas eram como feras disputando carniça em meio à savana da vida. Ela falou como amiga de infância, falou com autoridade de mãe, usou de toda a psicologia possível, afinal, ele era seu principal projeto, Andinho tinha futuro, levava jeito pra negócios. Tanta pressão aliada a técnicas, levaram Andinho à um surto, onde em meio à protestos, desatou em choro. O choro foi livre. E a cena se revelou ridícula: ele e a namorada nús, e ele chorando motivado pelo uso da psicologia por sua querida. Dias depois eles terminaram o namoro.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Agricultura e Florestas – Jorge Vivan - Resenha crítica


Jorge Vina vem por meio desta obra, trazer luz para todos os interessados em agroecologia em específico agroflorestas, onde cria-se uma floresta onde as plantas nativas se misturam com as plantas alimentícias ou de alguma outra função, mas que foram introduzidas naquele espaço pela ação do homem, criando um equilíbrio daquela vegetação e natureza como um todo.
Através de pesquisas acadêmicas e dados estatísticos, Jorge mostra a possibilidade de produzir aliado com a natureza, participando do ciclo natural que vai do nascimento ao outro nascimento. Mais um aprendizado imortantíssimo para todos que militam pela preservação da natureza e que praticam a permacultura.
Segue uma resenha do livro:
“Essa é a nossa porta de entrada para o fuuro possível, onde o homem deixe de ser o sabotador de seu próprio sustento, e incorpore em sua vida diária a interação otimizada com o ambiente que nos sustenta.”
“Os colonos italianos que chegaram ao sul do Brasil, em 1885 derrubaram araucárias (Araucaria angustifolia) de mais de 3m de diâmetro e 45m de altura, visando o plantio de trigo, cujas sementes trouxeram da Itália. Na mesma área, relativa (600m2) à copa de uma dessas árvores que produzia mais de 300kg de pinhões por ano por árvore, menos de 60kg de trigo eram colhidos.”
“Em substituição ao papel de 'orquestrador' da Companhia das Índias Ocidentais do tempo das caravelas, temos os conglomerados madeireiros, o agribusiness pecuário e seus elos internacionais de mercado. Do migrante miserável ao alto executivo, a ideologia é de que é uma 'missão' dar uma 'utilidade' aos ecossistemas e 'civilizar' os indígenas. Maximizar o uso do recurso natural e acumular bens é tão natural na ideologia dessas regiões como respirar.”
“... as legislações ambientais vieram sempre após a formalização social do processo de degradação, e que o povo obedeceu às novas regras enquanto houve coerção pela força.”
“Teríamos que incluir citações como 'Maias (765 a.C.)'. Afinal, determinadas práticas de manejo agroflorestal foram herdadas deles, embora diferentes pesquisadores tenham se ocupado em relatá-las, e agricultores contemporâneos ainda as adotem.”
“... não há nada de errado com o mundo. O que esta errado é a nossa maneira de olhar para ele.”
“Resumindo, a análise histórica mostra que, mesmo tendo elementos fortes de sustentabilidade e adaptação ambiental, os sistemas agrícolas – os agroecossistemas – sempre foram muito influenciados pela ideologia dos seguimentos dominantes.”
“Portanto, encarando de frente a vida que nos envolve, como parte dela que somos e não como deuses onipotentes...”
“Em suma, não é o que queremos que as plantas e os animais nos produzam. O que comanda é o potencial inerente que todo o organismo vivo que congrega e integra plantas e animais pode produzir, e quais são os fluxos e ciclos de energia que determinam esta produção.”
“O resultado global destes preceitos é uma abordagem que procura não como intervir, mas sim, como não intervir.”
É imprescindível fazer um “...zoneamento de ambientes favoráveis às culturas que pretendemos” para não precisarmos alterar muito a natureza e geografia local.
“... bananeiras precisam de zonas de umidade constante, boa exposição solar e matéria orgânica. Isso não é encontrado dentro de uma mata primária intacta...”
“... Amaranthus spp. Essa planta cobre bem o solo e é grande recuperadora de nitratos. Enquanto não competem por luz, a alface e o amaranto são um consórcio. Quando esta competição se inicia, o manejo de 'capina' é quebrar o amaranto, de modo que os nutrientes que acumulou sejam recuperados pela alface.”
“Se quiséssemos aumentar a eficiência energética do sistema, poderíamos ter introduzido mamão ou outro cultivo apropriado de ciclo médio.”
“Por isso, mais do que nunca, é preciso entrar na mata, andar, tocar, observar e senti-la como que verdadeiramente é, ou seja, um organismo vivo e auto-regulado.”
“... quanto maior o conhecimento do histórico do local, maior será a quantidade de informações que um indicador biológico poderá fornecer.”
“... a análise das interações entre radiação, umidade e nutrientes. Essas interações determinam as características básicas da fauna e da flora.”
“ Quanto mais perto dos pólos, mais crítico é o fator radiação, através da redução de luz e calor.”
“Também aliada à umidade alta, a sombra não ajuda muito secadores solares, plantios de determinadas culturas anuais e determinadas fases de frutíferas, como a floração.”
“... o encontro entre o reducionismo e o holismo, entre o saber popular e o saber acadêmico é o caminho para se chegar a um conhecimento real dos ambientes.”
“para conhecer a natureza, devemos prestar mais atenção às formas do que ao conteúdo”.
“Quando falamos da dinâmica da sucessão natural de espécies, citamos a palavra 'consórcios' e 'consórcios dominantes' algumas vezes. Na verdade, não se trata apenas de uma sucessão de espécies, mas sim de uma sucessão de consórcios de espécies. … um consorcio de seres vivos, do nivel micro ao macro.”
“Na sequência, os cipós deslocam-se para o alto das árvores, criando uma teia de amarração que ajuda a vegetação a resistir aos vendavais e ciclones.”
“Áreas abandonadas há mais de 8 anos e que sustentam apenas samambaias e arbustos pioneiros indicam como histórico uma ação antropogênica intensa, com fogo e pastoreio... embaúbas... uma derrubada seguida de fogo com posterior abandono... solos mais férteis e úmidos... embaúba branca... embaúba vermelha... solos mais fracos.”
“... nem todas as espécies tolerarão podas anuais, mas sim deverão ser avaliadas em função da recuperação que apresentarem.”
“...a podação seletiva de indivíduos causa uma transferência progressiva da biomassa ( e consequentemente dos nutrientes) armazenados na vegetação para o solo.”
“Este é um pricípio que orienta as roças indígenas...”
“Embaúbas(Cecropia spp)... certa habilidade de rebrote enquanto juvenis e adultas. Mundururús (Melastomataceae) já são menos hábeis no rebrote... Capiangas têm grande capacidade de rebrote, assim como o Fumo-Bravo (Solanaceae)... jurubeba (Solanaceae), a candeia (conhecida como 'vassourinha' no sul do Brasil, família Compositae) são hábeis no rebrote...”
“Resumindo, o comportamento das espécies é o resultado de uma interação entre o nicho que ocupam na sucessão, e fatores de nutrientes, umidade e radiação.”
“Na Mata Tropical Úmida, quando há a ausência de um período seco previsível, o final da época dos vendavais é propícia para o manejo de áreas de mata secundária madura e mata primária...”
O manejo no período de chuvas “propicia a entrada de radiação e nutrientes numa época onde esses fatores poderiam limitar o crescimento das espécies introduzidas.”
“Em outras palavras, o produtor pode receber de 10 a 100 vezes menos do que o consumidor paga pelo mesmo produto.”
“Queremos conhecer profundamente populações e ambientes e desvendar a lógica dos sistemas, de modo a deixá-los mais afinados com os ambientes, o que pode vir a torná-los economicamente eficientes, ambientalmente sustentáveis e socialmente benéficos.”
Em terrenos como os latossolos da Mata Atlântica, qual é a agricultura que podemos praticar? “Cultivos sucessivos e consorciados que mantêm o solo coberto; rotações de cultivos com espécies ferilizadoras, introduzidas ou nativas; convivência dos cultivos com plantas nativas...”
“ ...numa área menos exposta à radiação, algumas culturas, como o feijão e o milho, podem ter dificuldades ou diminuição de produtividade.”
“Radiação. Uma exposição voltada para o noroeste aumenta significativamente a quantidade de energia radiante recebida, principalmente, em áreas declivosas.”
“Para o agricultor que planta, maneja e colhe em um sistema agroflorestal, dois fluxos são básicos: quantificar entradas e saídas, relacionadas a volume, data e natureza da atividade ou produto. Esse tipo de anotação primária permitirá traçar um perfil de consumo de capital, mão-de-obra e insumos, bem como de produtos obtidos ao longo do tempo.”
“A grande dificuldade é analisar o desempenho dos produtos item por item, uma vez que os insumos, manutenção e mão-de-obra afetam praticamente todo o sistema, não importando se ele será colhido em 3 meses ou 30 anos. De qualquer modo, os retornos proporcionados pelos produtos de curto e médio prazo podem ser relativizados aos custos integrais do sistema no período, o que dá uma relação custo/benefício do produto em relação ao sistema como um todo.”
“Não sabemos ao certo quem está derrubando nossas florestas e nem quem vai alagar nossas terras, mas sabemos que moram em cidades, onde os ricos estão ficando mais ricos, e nós os pobres estamos perdendo o pouco que temos”.
“...o tamanho ideal de cada mutirão era o que possibilitava que cada propriedade fosse visitada uma vez por mês. Todas as segundas... quatro famílias de agricultores...”
E suma, o livro traz a reflexão sobre produzir alimentos, madeira com equilíbrio e em conjunto com a natureza. E nos lembra que somos parte dessa natureza, fazemos parte dessa energia maior que rege toda a vida no universo. Nesse aspecto, não somos nem maiores nem menores que os outros seres vivos.